{"id":755,"date":"2019-09-01T07:38:24","date_gmt":"2019-09-01T11:38:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/?p=755"},"modified":"2019-09-01T09:48:34","modified_gmt":"2019-09-01T13:48:34","slug":"babilonias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/2019\/09\/01\/babilonias\/","title":{"rendered":"BABIL\u00d4NIAS"},"content":{"rendered":"<p>BABIL\u00d4NIAS<\/p>\n<p>\u201cestamos atolados at\u00e9 ao pesco\u00e7o na colonialidade\u201d<br \/>\nAilton Krenak<\/p>\n<p>Come\u00e7o com uma frase do txai Ailton Krenak sobre o assunto da hora. S\u00e3o tantas as coisas que queria abordar nesse texto que come\u00e7o com essa frase nos convidando a imaginar a cena de alguns poucos viventes que conseguem boiar e dar um respiro r\u00e1pido para poder ver e sentir como \u00e9 l\u00e1 fora dos efeitos da coloniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEstar l\u00e1, falar, trabalhar, agir e agenciar de l\u00e1, seria o ideal para que enfim pud\u00e9ssemos sonhar em decolonizar o nosso mundo. Mas do que mesmo estamos tratando? De uma maneira simples quero colocar que, do modo em que vivemos, nesse novo arranjo sedimentar das culturas, estamos soterrados totalmente e n\u00e3o apenas at\u00e9 o pesco\u00e7o.<br \/>\nEm um comparativo com a vida pr\u00e1tica, estamos sendo pouco a pouco sufocados por algo forte, denso, opressor e que n\u00e3o entra ar. Seria a cobertura colonial sobre n\u00f3s, todas as sociedades que ainda permanecem definidas em suas culturas no hoje contempor\u00e2neo.<br \/>\nAbaixo dessa camada estamos n\u00f3s ainda vivos sendo nutridos pelo que ainda resta do que ficou conosco soterrado sob a densa camada colonial. Ent\u00e3o, estamos com pouco tempo de vida. \u00c9 de se perceber que, matematicamente, nossos recursos chegar\u00e3o ao fim uma hora, o nosso ar. E, se n\u00e3o conseguirmos nesse tempo furar buracos nesse teto para tomarmos f\u00f4lego, n\u00e3o seguiremos no mundo.<br \/>\nEnt\u00e3o, abaixo, sob press\u00e3o at\u00f4mica viramos outro tipo de petr\u00f3leo, serviremos de energia \u00e0 engrenagem e conclui-se a coloniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nVoltamos \u00e0 ideia dos buracos, esta que \u00e9 tamb\u00e9m uma ilustra\u00e7\u00e3o do Ailton Krenak para o que seriam esses lampejos de ideias e excita\u00e7\u00f5es sobre a decolonialidade. Seria furar pequenos buracos nesse muro intranspon\u00edvel e assim flertar com o outro lado, o antes colonial, a liberdade que deveria haver antes de tudo isso.<br \/>\nAqui eu vou botar mais uma quest\u00e3o para os pensadores. Para o caso de conseguirmos sair dos efeitos da colonialidade, em tese, temos dois sentidos a seguir. O primeiro talvez seria a ideia de retorno. Voltamos ent\u00e3o para onde est\u00e1vamos antes. A segunda seria tomar um rumo que nos levasse a algo bem diferente do que \u00e9 a coloniza\u00e7\u00e3o. Anote sobre a segunda op\u00e7\u00e3o.<br \/>\nParece razo\u00e1vel at\u00e9 aqui a este ponto. Portanto convido a voltar nas ideias. Suponhamos que conseguimos boiar, nadar para o continente e deixar para tr\u00e1s toda a colonialidade, o passo seguinte seria voltar a ser como antes. O detalhe \u00e9 que ap\u00f3s acordarmos, soterrados pela coloniza\u00e7\u00e3o, todo o nosso referencial vem dessa condi\u00e7\u00e3o, ou seja, n\u00f3s n\u00e3o ter\u00edamos mais as estruturas para se viver como tal. Uma por n\u00e3o saber como se viviam antes, outra por n\u00e3o termos mesmo condi\u00e7\u00f5es de nos reestabelecermos nas rela\u00e7\u00f5es meios sociais e c\u00f3smicos.<br \/>\nDesde a chegada dos navios at\u00e9 hoje quando se capturam os \u00faltimos \u201cselvagens\u201d estamos engrossando a coluna definitiva da coloniza\u00e7\u00e3o? Uma vez processo pr\u00f3prio para onde vai a coloniza\u00e7\u00e3o depois de n\u00f3s? Pode haver essa ruptura na mem\u00f3ria? Sim, pois mem\u00f3ria \u00e9 algo que precisa de estruturas. De imediato, por hora, nos foge a primeira alternativa.<br \/>\nEnt\u00e3o partimos para a segunda alternativa, qual seria, a sociedade alternativa. Ca\u00edmos ent\u00e3o na aventura de uma outra poss\u00edvel babil\u00f4nia visto que todos os outros termos e experi\u00eancias de rela\u00e7\u00f5es sociais j\u00e1 tenham sido vividas. Algumas experi\u00eancias conseguiram sobreviver por algum tempo mas as grandes quest\u00f5es universais permanecem desafiando o romance. Visto que a coloniza\u00e7\u00e3o vem da Europa, de l\u00e1 tamb\u00e9m vem outras formas de viver e se relacionar como o mundo e com os meios, mas cabe salientar que falamos deste lugar de fala e que aqui o caso \u00e9 espec\u00edfico.<br \/>\nPara pensarmos em decoloniza\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 preciso que se pense seu fim no mundo todo pois essa deve ser a observa\u00e7\u00e3o clarividente de quem pensa decoloniza\u00e7\u00e3o, cultura e contemporaneidade.<br \/>\nAqui entramos um pouco mais em complexidade quando puxamos o assunto para o lugar da fala e o lugar da escuta. Eu sou ind\u00edgena e como agente de representa\u00e7\u00e3o a decoloniza\u00e7\u00e3o para mim deve querer dizer algo espec\u00edfico. Na representa\u00e7\u00e3o da invas\u00e3o eu sou o remanescente do nativo. Hoje, no meu grupo de vida h\u00e1 remanescente dos invasores e para eles a decoloniza\u00e7\u00e3o deve dizer outra coisa.<br \/>\nA decoloniza\u00e7\u00e3o deve dizer algo espec\u00edfico para a popula\u00e7\u00e3o negra do Brasil e do mundo. Essa complexidade se amplia quando a colonialidade \u00e9 vista ou discutida por pessoas em processos de forma\u00e7\u00e3o de autoidentidade entre outros g\u00eaneros.<br \/>\nCome\u00e7amos a perceber que a decolonialidade talvez exija uma transfer\u00eancia para outra matriz e pens\u00e1-la seria esse o primeiro passo no complexo sistema de \u201chigieniza\u00e7\u00e3o\u201d daquilo que ser\u00e1 transplantado para outro ambiente \u2013 p\u00f3s-colonial? O que ser\u00e1 poupado da colonialidade? Essa ideia do transplante vem com uma fala minha, a quest\u00e3o de pequenas lavagens cerebrais reversas, que seria um campo limpo no c\u00e9rebro para instalar as bases da decolonialidade. Isso parte tamb\u00e9m de um choque que \u00e1s vezes digo: n\u00e3o gosto de gente, ou, o ser humano \u00e9 imundo. S\u00e3o cria\u00e7\u00f5es de tens\u00f5es, fa\u00edscas para despertar estranhamentos e testar as teses.<br \/>\nPercebemos que estamos diante de quest\u00f5es centrais da vida social quando falamos em decolonialidade. Na imagem do retorno tamb\u00e9m h\u00e1 trag\u00e9dia; guerra e viol\u00eancia s\u00e3o vistos em outros contextos. A dor do deslocamento, do desmembramento, do acordar individual e coletivo deve ser o primeiro sintoma para a sequ\u00eancia de despertares. Se o despertar for geral veremo-nos todos conectados e essa seria a cultura universal.<br \/>\nAssim, como vimos, vamos precisar portanto de um outro terreno para ocupar. Esse outro terreno \u00e9 o que est\u00e1 entre o voltar e a j\u00e1 tentada, e ainda resistente, sociedade alternativa.<br \/>\nH\u00e1 uma via, a que para muitos de n\u00f3s ainda \u00e9 o sentido. Se h\u00e1 os buracos min\u00fasculos no teto e no muro, h\u00e1 a liga\u00e7\u00e3o com o c\u00e9u, com o infinito e portanto h\u00e1 canais abertos. Deve vir desse ambiente, o universo, como sempre veio, o resgate que a mim mesmo j\u00e1 foi prometido. Nesse ponto encontramos de novo os personagens que conseguiram furar ou manter abertos esses buracos. Contamos ainda com esse ambiente provedor, o imagin\u00e1rio, a f\u00e9, o afeto profundo por algo al\u00e9m da mat\u00e9ria, dos sentidos conhecidos e das esferas humanas.<br \/>\nEles existem, vivem sob os efeitos da colonialidade mas conseguem transpor e ver al\u00e9ns. Essas \u201cidas\u201d do lado de l\u00e1 t\u00eam sido poss\u00edveis dentro de uma perspectiva que, para a nossa compreens\u00e3o, podem ser chamadas de pr\u00e1ticas eternas. Pr\u00e1ticas eternas seriam ideias de conex\u00f5es xam\u00e2nicas, astrais, sobrenaturais para ci\u00eancia; a capacidade de ser percebido e perceber o universo.<br \/>\nS\u00e3o eternas pois n\u00e3o tem data e n\u00e3o deve mudar nunca pois s\u00e3o b\u00e1sicas. Para se manter uma pr\u00e1tica universal \u00e9 necess\u00e1rio muita disciplina, ren\u00fancia, at\u00e9 hierarquia, acreditem. Percebam que entramos para o campo de outros termos e acho que j\u00e1 posso falar de poder. Essas coisas que por certo j\u00e1 existiam aos seus modos para suas aplica\u00e7\u00f5es antes da chegada dos navios. Rituais, o uso das medicinas das plantas, a autonomia de ir direto para a ideia de c\u00e9u.<br \/>\nMe perdi e fui muito para longe nisso mas uma das quest\u00f5es centrais \u00e9 a necessidade de termos par\u00e2metros para dimensionar a colonialidade. Na camada de soterramento os nativos, ditos ind\u00edgenas est\u00e3o amassados sobre suas mem\u00f3rias e resistir \u00e9 o terreno provis\u00f3rio antes da volta para casa. Talvez os ind\u00edgenas tenham essa mem\u00f3ria de casa e olhando para o c\u00e9u retornam por teimosia acreditando que ele n\u00e3o deva cair mais uma vez.<\/p>\n\t<div class=\"quickshare-container\">\r\n\t<ul class=\"quickshare-genericons monochrome quickshare-effect-spin quickshare-effect-expand\">\r\n\t\t<li class=\"quickshare-share\">Compartilhe:<\/li> \r\n\t\t<li><a href=\"https:\/\/facebook.com\/sharer.php?u=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2019%2F09%2F01%2Fbabilonias%2F&amp;t=BABIL%C3%94NIAS+<+JAIDER+ESBELL\" target=\"_blank\" title=\"Share on Facebook\"><span class=\"quickshare-facebook\">Facebook<\/span><\/a><\/li>\t\t<li><a href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?url=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2019%2F09%2F01%2Fbabilonias%2F&amp;text=BABIL%C3%94NIAS+<+JAIDER+ESBELL\" target=\"_blank\" title=\"Share on Twitter\"><span class=\"quickshare-twitter\">Twitter<\/span><\/a><\/li>\t\t\t\t<li><a href=\"http:\/\/linkedin.com\/shareArticle?mini=true&amp;url=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2019%2F09%2F01%2Fbabilonias%2F&amp;title=BABIL%C3%94NIAS&amp;source=JAIDER+ESBELL&amp;summary=BABIL%C3%94NIAS+%E2%80%9Cestamos+atolados+at%C3%A9+ao+pesco%C3%A7o+na+colonialidade%E2%80%9D+Ailton+Krenak+Come%C3%A7o+com+uma+frase+do+txai+Ailton+Krenak+sobre+o+assunto+da+hora.+S%C3%A3o+tantas+as+coisas+que+queria+abordar+nesse+texto+que+come%C3%A7o+com+essa+frase+nos+convidando+a%26hellip%3B\" title=\"Share on Linkedin\" target=\"_blank\"><span class=\"quickshare-linkedin\">Linkedin<\/span><\/a><\/li>\t\t<li><a href=\"https:\/\/plus.google.com\/share?url=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2019%2F09%2F01%2Fbabilonias%2F\" target=\"_blank\" title=\"Share on Google+\"><span class=\"quickshare-googleplus\">Google+<\/span><\/a><\/li>\t\t<li><a href=\"http:\/\/tumblr.com\/share\/link?url=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2019%2F09%2F01%2Fbabilonias%2F&amp;name=BABIL%C3%94NIAS+<+JAIDER+ESBELL&amp;description=BABIL%C3%94NIAS+%E2%80%9Cestamos+atolados+at%C3%A9+ao+pesco%C3%A7o+na+colonialidade%E2%80%9D+Ailton+Krenak+Come%C3%A7o+com+uma+frase+do+txai+Ailton+Krenak+sobre+o+assunto+da+hora.+S%C3%A3o+tantas+as+coisas+que+queria+abordar+nesse+texto+que+come%C3%A7o+com+essa+frase+nos+convidando+a%26hellip%3B\" title=\"Share on Tumblr\" target=\"_blank\"><span class=\"quickshare-tumblr\">Tumblr<\/span><\/a><\/li>\t\t<li><a href=\"http:\/\/reddit.com\/submit?url=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2019%2F09%2F01%2Fbabilonias%2F&amp;title=BABIL%C3%94NIAS+<+JAIDER+ESBELL\" title=\"Submit to Reddit\" target=\"_blank\"><span class=\"quickshare-reddit\">Reddit<\/span><\/a><\/li>\t\t<li><a href=\"http:\/\/stumbleupon.com\/submit?url=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2019%2F09%2F01%2Fbabilonias%2F&amp;title=BABIL%C3%94NIAS+<+JAIDER+ESBELL\" target=\"_blank\" title=\"Share on StumbleUpon\"><span class=\"quickshare-stumbleupon\">Stumble Upon<\/span><\/a><\/li>\t\t\t<\/ul>\r\n\t<\/div>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BABIL\u00d4NIAS \u201cestamos atolados at\u00e9 ao pesco\u00e7o na colonialidade\u201d Ailton Krenak Come\u00e7o com uma frase do txai Ailton Krenak sobre o assunto da hora. S\u00e3o tantas as coisas que queria abordar nesse texto que come\u00e7o com essa frase nos convidando a imaginar a cena de alguns poucos viventes que conseguem boiar e dar um respiro r\u00e1pido [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":756,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/755"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=755"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/755\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":762,"href":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/755\/revisions\/762"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/756"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}