{"id":870,"date":"2020-05-02T05:02:02","date_gmt":"2020-05-02T09:02:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/?p=870"},"modified":"2020-05-02T05:07:11","modified_gmt":"2020-05-02T09:07:11","slug":"sobre-a-arte-indigena-contemporanea-disse-o-caboco","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.jaideresbell.com.br\/site\/2020\/05\/02\/sobre-a-arte-indigena-contemporanea-disse-o-caboco\/","title":{"rendered":"Sobre a arte ind\u00edgena contempor\u00e2nea disse o CABOCO"},"content":{"rendered":"<p>Fala do artista Gustavo Caboco Wapixana  em LIVE para o projeto webn\u00e1rio da UFPR exibida no dia 29\/04\/2020.<\/p>\n<p><strong>Boca boca boca boca caboco caboca boca boca boca caboco Gustavo caboco caboco caboco Gustavo caboco boca boca bocabocacaboco<\/strong><br \/>\n\u00a0<\/p>\n<p>Num primeiro olhar, surgem quest\u00f5es b\u00e1sicas: de onde vem? quem \u00e9? quem faz? o que faz o artista ind\u00edgena contempor\u00e2neo? os artistas, as artistas? por qu\u00ea? o que difere? por onde anda a arte ind\u00edgena contempor\u00e2nea? \u00e9 arte? \u00e9 arte ind\u00edgena? \u00e9 arte ind\u00edgena contempor\u00e2nea? \u00e9 arte contempor\u00e2nea ind\u00edgena? Onde \u00e9 o pr\u00f3ximo encontro?<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo eu n\u00e3o sei, provavelmente em mais uma live, nestes tempos de pandemia. O que temos pra hoje s\u00e3o conversas com o artista wapichana, Gustavo caboco, neste encontro proposto pela ag\u00eancia escola, da UFPR, no\u00a0\u201cMovimento Conex\u00e3o: Culturas Compartilhadas\u201d.<\/p>\n<p>Para come\u00e7o de conversa, precisamos pontuar que esta ideia da AIC, este conceito-sistema, \u00e9 proposto e nomeado pelo artista do povo Macuxi, Jaider Esbell. Pelo menos \u00e9 de onde ouvi a primeira vez (me corrijam pesquisadores, por favor!). Depois, ouvi a boca de muitos outros, o Baniwa, a Terena, a Tukano, a Patax\u00f3, o Huni Kuin, e minha boca come\u00e7ou a falar tamb\u00e9m, arte-ind\u00edgena-contempor\u00e2nea-arte-ind\u00edgena contempor\u00e2nea-arte-ind\u00edgena-contempor\u00e2nea. <\/p>\n<p>A boca j\u00e1 falava. Entendo esta ideia como um lugar, um ponto de encontro entre n\u00f3s, parentes de v\u00e1rios povos, a ci\u00eancia acad\u00eamica, os museus, o sistema da arte contempor\u00e2nea, os centros culturais, galerias de arte ind\u00edgena, museus nativos, a literatura, o cinema, a ro\u00e7a, a casa da \u00a0tia, da vov\u00f3, e tantos outros campos.\u00a0<\/p>\n<p>Mais que isso, um ponto de articula\u00e7\u00e3o e caminhos da autonomia: a nossa sobreviv\u00eancia. Na minha vis\u00e3o, crio a arte-ponte Paran\u00e1-Roraima que conecta nossas hist\u00f3rias, cruzamentos, deslocamentos. Roraima-Roraim\u00e3. Se em dado momento (1975), inauguraram a ponte dos Macuxi, que atravessa o rio Branco e liga a cidade de Boa Vista com outros munic\u00edpios (Cant\u00e1, Bonfin, Normandia) onde h\u00e1 diversas terras ind\u00edgenas e vai at\u00e9 a Guiana, foi em outro tempo, antes desta ponte, em 1968 que um projeto de ponte dos Wapichana se iniciou com a doa\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a ind\u00edgena.<br \/>\n\u00c9 nesta travessia que eu trabalho, interagindo com os meus parentes, a comunidade onde est\u00e1 nossa fam\u00edlia, os artistas ind\u00edgenas destes dois estados e tamb\u00e9m os que eu encontro no meio desse caminho, e muito temos a colaborar. A ponte Wapichana foi constru\u00edda pela nossa nossa fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Nessa ponte, na Macuxi e na Wapichana, j\u00e1 fui parado muitas vezes e questionado sobre ser \u00edndio de verdade? Veracidade, legitimidade. Aponta\u00e7\u00e3o de dedos: \u201cSua hist\u00f3ria \u00e9 de mentira\u201d. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 \u00edndio n\u00e3o, voc\u00ea come macarr\u00e3o&#8221;. Na ponte dos Macuxis, em 2019, a pol\u00edcia me interceptou enquanto eu dirigia um carro, fez baf\u00f4metro, eu e meus parentes Wapichana demos risada, estava tudo bem. Na ocasi\u00e3o, est\u00e1vamos indo para um Parichara, na formatura de uma turma de estudantes ind\u00edgenas. <\/p>\n<p>Brincamos com a situa\u00e7\u00e3o para n\u00e3o nos sentirmos constrangidos com a abordagem. Na ponte Wapichana, atravesso o marco de 33 anos de hist\u00f3ria para a sua inaugura\u00e7\u00e3o (2001), quando re-encontramos nossos parentes. Leia-se: quando minha m\u00e3e re-encontrou minha av\u00f3, depois de tr\u00eas d\u00e9cadas. O fato \u00e9, que a arte ind\u00edgena contempor\u00e2nea, possibilita o tr\u00e2nsito nesta ponte, na ponte Wapichana.<\/p>\n<p>Foi por essa via tamb\u00e9m que eu e jaider esbell botamos de p\u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o no MUSA-UFPR, chamada Netos de Makunaim\u00ee. Encontros Makuchana, povos Makuxi e Wapixana trabalhando juntos, re-atualizando todo o hist\u00f3rico de conflitos entre estes povos de Roraima. Plantando sementes de Wazak\u00e1.<\/p>\n<p>A ideia Makuchana j\u00e1 havia sido anunciada pela av\u00f3 da minha m\u00e3e, antes mesmo de iniciar o tal projeto da ponte Wapichana. N\u00e3o foi profecia, foi observa\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia do seu lugar, nossa hist\u00f3ria, entendimento do contexto pol\u00edtico nos anos 60 e das rela\u00e7\u00f5es daquele tempo. No tempo de hoje, muitos netos makuchana est\u00e3o por a\u00ed representando nossas cosmologias e o vov\u00f4 Makunaim\u00ee. Acredito que h\u00e1 espa\u00e7o para todos n\u00f3s, e muitos outros parentes, nessa hist\u00f3ria. Cabem todos os netos e primos no abra\u00e7o do vov\u00f4 e da vov\u00f3, e as responsabilidades que o abra\u00e7o implica.<\/p>\n<p>Os choques de realidade s\u00e3o necess\u00e1rios neste tr\u00e2nsito Paran\u00e1-Roraima. Entender a hist\u00f3ria desta ponte \u00e9 importante para observar os campos que ela conecta. Entender, por exemplo, que ela atravessa tamb\u00e9m a BR174 para conectar Boa Vista \u00e0 Manaus. BR cheia de mem\u00f3ria, quando percebemos o cruzamento com o caminho dos Waimiri-Atroari, aqueles que s\u00e3o sobreviventes de um extremo massacre e genoc\u00eddio nos anos 70. Mesmo olhando da janelinha do \u00f4nibus, da janelinha do celular na live, ou plantando bananeira nessa via, essa hist\u00f3ria est\u00e1 ali marcada. O tr\u00e2nsito da ponte Wapichana nesta via, tamb\u00e9m. <\/p>\n<p>Aprender sobre a ponte Wapichana \u00e9 entender que ela \u00e9 gente, ponte-gente, que minha m\u00e3e construiu com sua hist\u00f3ria de vida, no deslocamento do seu corpo Wapichana. Um deslocamento colonial-afetuoso. Entender que esta nossa hist\u00f3ria e minha m\u00e3e s\u00e3o sobreviventes. Sobreviventes de um povo e um lugar. Muita gente j\u00e1 morreu na constru\u00e7\u00e3o de estradas, perdeu sua mem\u00f3ria, muita gente ind\u00edgena morre em BRs, com ataques, atropelamentos. As rodovias e pontes s\u00e3o estrat\u00e9gicas nos projetos de genoc\u00eddio e apagamento da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em nosso caso, a hist\u00f3ria vive. perdura. Por isso falo para os meus parentes que s\u00f3 o fato de conversamos, j\u00e1 estamos fazendo arte, criando. Criando mundos, possibilidades de exist\u00eancia ind\u00edgena Wapichana e a troca de saberes com outros povos e isto n\u00e3o \u00e9 fic\u00e7\u00e3o, met\u00e1fora. \u00c9 realidade e arte ind\u00edgena contempor\u00e2nea. <\/p>\n<p>Do mesmo modo que nossos parentes criaram marcos na hist\u00f3ria da academia: seja com Coudreau, Farage, Sirino, Grunberg e tantos outros. Pouco nos devolvem, presencialmente. S\u00e3o s\u00e1bios, mas n\u00e3o sabi\u00e1s, que cantam livremente. Por isso fazemos arte, por qu\u00ea atravessamos a ponte da ci\u00eancia acad\u00eamica, nos alimentamos dela tamb\u00e9m. Colaboramos, mas temos, felizmente, a ponte dos Wapichana, a ponte com o povo Macuxi, e a possibilidade de nos encontrarmos dentro do sistema da arte ind\u00edgena contempor\u00e2nea e suas particularidades. As nossas particularidades.<\/p>\n<p>Estamos na d\u00e9cada da arte ind\u00edgena contempor\u00e2nea, que ser\u00e1 celebrada, festejada, ritualizada em 2028, com o marco do centen\u00e1rio da obra de M\u00e1rio de Andrade. Jaider Macuxi iniciou essa s\u00e9rie de lan\u00e7amentos em Roraima, depois veio at\u00e9 Curitiba e fizemos o lan\u00e7amento juntos, com Lucilene Wapichana, Ana Elisa, Paula Berbert, e continuou os an\u00fancios na R\u00e1dio Yand\u00ea, juntamente com Denilson Baniwa, Naine Terena e Daiara Tukano. O p\u00e1ssaro do bico preto e todo o p\u00fablico que estava interagindo neste bom papo-fogueira-virtual durante as a\u00e7\u00f5es do abril ind\u00edgena 2020, sabe. A nossa quarentena lembra.\u00a0<\/p>\n<p>Aproveito esta ocasi\u00e3o pra dizer: vamos trabalhar parente Wapichana. S\u00e3o muitas as pontes, muito trabalho a ser feito, trabalho de formiguinha. Seguimos nessa picada, entendendo quando mato \u00e9 mato, gente \u00e9 gente, respeitando o tempo e o espa\u00e7o de cada um. Nos unamos e vamos trabalhar coletivamente, fazendo ajuri, caminhando, cantando, desenhando, conversando, falando. Boca boca boca boca boca boca do antepassado, antepresente, do presente, boca boca boca boca. Continuemos falando, n\u00e3o apagar\u00e3o nossa mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Foto: Paula Berbert em mais um crime contra as \u00e1rvores vov\u00f3s do Paran\u00e1!<\/p>\n\t<div class=\"quickshare-container\">\r\n\t<ul class=\"quickshare-genericons monochrome quickshare-effect-spin quickshare-effect-expand\">\r\n\t\t<li class=\"quickshare-share\">Compartilhe:<\/li> \r\n\t\t<li><a href=\"https:\/\/facebook.com\/sharer.php?u=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2020%2F05%2F02%2Fsobre-a-arte-indigena-contemporanea-disse-o-caboco%2F&amp;t=Sobre+a+arte+ind%C3%ADgena+contempor%C3%A2nea+disse+o+CABOCO+<+JAIDER+ESBELL\" target=\"_blank\" title=\"Share on Facebook\"><span class=\"quickshare-facebook\">Facebook<\/span><\/a><\/li>\t\t<li><a href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?url=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2020%2F05%2F02%2Fsobre-a-arte-indigena-contemporanea-disse-o-caboco%2F&amp;text=Sobre+a+arte+ind%C3%ADgena+contempor%C3%A2nea+disse+o+CABOCO+<+JAIDER+ESBELL\" target=\"_blank\" title=\"Share on Twitter\"><span class=\"quickshare-twitter\">Twitter<\/span><\/a><\/li>\t\t\t\t<li><a href=\"http:\/\/linkedin.com\/shareArticle?mini=true&amp;url=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2020%2F05%2F02%2Fsobre-a-arte-indigena-contemporanea-disse-o-caboco%2F&amp;title=Sobre+a+arte+ind%C3%ADgena+contempor%C3%A2nea+disse+o+CABOCO&amp;source=JAIDER+ESBELL&amp;summary=Fala+do+artista+Gustavo+Caboco+Wapixana+em+LIVE+para+o+projeto+webn%C3%A1rio+da+UFPR+exibida+no+dia+29%2F04%2F2020.+Boca+boca+boca+boca+caboco+caboca+boca+boca+boca+caboco+Gustavo+caboco+caboco+caboco+Gustavo+caboco+boca+boca+bocabocacaboco+%C2%A0+Num+primeiro%26hellip%3B\" title=\"Share on Linkedin\" target=\"_blank\"><span class=\"quickshare-linkedin\">Linkedin<\/span><\/a><\/li>\t\t<li><a href=\"https:\/\/plus.google.com\/share?url=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2020%2F05%2F02%2Fsobre-a-arte-indigena-contemporanea-disse-o-caboco%2F\" target=\"_blank\" title=\"Share on Google+\"><span class=\"quickshare-googleplus\">Google+<\/span><\/a><\/li>\t\t<li><a href=\"http:\/\/tumblr.com\/share\/link?url=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2020%2F05%2F02%2Fsobre-a-arte-indigena-contemporanea-disse-o-caboco%2F&amp;name=Sobre+a+arte+ind%C3%ADgena+contempor%C3%A2nea+disse+o+CABOCO+<+JAIDER+ESBELL&amp;description=Fala+do+artista+Gustavo+Caboco+Wapixana+em+LIVE+para+o+projeto+webn%C3%A1rio+da+UFPR+exibida+no+dia+29%2F04%2F2020.+Boca+boca+boca+boca+caboco+caboca+boca+boca+boca+caboco+Gustavo+caboco+caboco+caboco+Gustavo+caboco+boca+boca+bocabocacaboco+%C2%A0+Num+primeiro%26hellip%3B\" title=\"Share on Tumblr\" target=\"_blank\"><span class=\"quickshare-tumblr\">Tumblr<\/span><\/a><\/li>\t\t<li><a href=\"http:\/\/reddit.com\/submit?url=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2020%2F05%2F02%2Fsobre-a-arte-indigena-contemporanea-disse-o-caboco%2F&amp;title=Sobre+a+arte+ind%C3%ADgena+contempor%C3%A2nea+disse+o+CABOCO+<+JAIDER+ESBELL\" title=\"Submit to Reddit\" target=\"_blank\"><span class=\"quickshare-reddit\">Reddit<\/span><\/a><\/li>\t\t<li><a href=\"http:\/\/stumbleupon.com\/submit?url=http%3A%2F%2Fwww.jaideresbell.com.br%2Fsite%2F2020%2F05%2F02%2Fsobre-a-arte-indigena-contemporanea-disse-o-caboco%2F&amp;title=Sobre+a+arte+ind%C3%ADgena+contempor%C3%A2nea+disse+o+CABOCO+<+JAIDER+ESBELL\" target=\"_blank\" title=\"Share on StumbleUpon\"><span class=\"quickshare-stumbleupon\">Stumble Upon<\/span><\/a><\/li>\t\t\t<\/ul>\r\n\t<\/div>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fala do artista Gustavo Caboco Wapixana em LIVE para o projeto webn\u00e1rio da UFPR exibida no dia 29\/04\/2020. 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